2/16/2016
1/12/2016
Coisa...
DETRAN-SP
Eu não estava acreditando em nada do que ele dizia; se cuspisse seria mais fácil de acreditar.
Tenho vagas lembranças daquele antigo DETRAN do Ibirapuera, aqui em São Paulo, que ainda me causam sensação de repulsa. As lembranças. Era muita gente querendo se livrar dos papéis, despachantes, gente de todo jeito.
Sabe um vídeo que está rolando na internet?
De um cara que entrou num túnel abandonado, sem endereço, foi caminhando e a cada passo a temperatura baixava; frio, escuro, assustador; acendeu a lanterna e leu uma sequência de numeração na parede, que decrescia a cada metro adentrado; viu ossos e detritos pelo chão batido, temperatura já a 10°C, quando ouviu vozes estranhas, um vulto negro, e um barulho grotesco, tipo bem animalesco: trevas 2x. Virou-se e saiu correndo de volta à vida.
Pois comigo foi parecido: um dia entrei no Detran, sem elevador, e subi as escadas: ninguém; só penumbra, fios, rabiscos, paredes descoradas, horrível. Era para ter dado a volta, mas já era tarde.
Que eu fui fazer lá? Sei lá, cada encrenca que eu me meto. Sei que uma vez eu fui pesquisar quem era o dono do carro cuja chapa eu anotara: surpresa! e meus olhos se abriram: o funcionário me deu tudo: nome e endereço completo do tal. Isso mesmo, o que não se faz o Detran resolvia pra você.
De outra vez, eu já entrei equipada com uma câmera daquelas que agente apoia nos ombros, anos 80, sabe? Pronto. Encrenca no saguão do Detran. É muito zelo. Um me parou - "entrega a fita" etc...não entrego. Então espera lá na sala... sei lá de quem. Entrei e me sentei num sofá. O sr. zeloso maior atrás da sua mesa de madeira escura antiga me explicava o que era certo e errado nessa vida. Ele achava que eu assentia; aí ele fingia que acreditava no que estava dizendo. Eu fazia ele pensar que ele estava me convencendo; inútil. Então a frase do início se encaixa aqui: "Eu não estava acreditando..."
In Santa Teresa - Rio de Janeiro
CRIATURAS CRUAS
6/02/2013
Palavras para que foram ditas...
7/03/2011
Todas as cidades do Brasil
5/15/2011
Depoimento

Depoimento
(Folha de S.Paulo, 15/5/2011)
Eu já tinha provado outras drogas, mas quando provei crack, não consegui mais largar e fui ficando. Roubo um, enrolo outro e consigo dinheiro para comprar pedra. Senti aquela primeira brisa e quis de novo. Não quero saber se é óxi, ‘Hulk’ ou super Homem. Na fissura, não importa.
Não tenho porque ir embora. Tomo café da manhã e almoço de graça nas igrejas, mas eu só tenho fome antes de fumar. Depois, nem lembro de comer.
No final da tarde, os donos dos bares sempre distribuem salgadinho. Aqui também tem lugar onde tomar banho. Tem marmitex rolando 24 horas por aí.
Só uso roupa de marca. Ganho, troco por pedra ou roubo [mostra a etiqueta do jeans e da malha de lã de grifes conhecidas]. Os playboys só trazem coisa de primeira para a cracolândia. Com R$ 150, dá para encher uma mala de roupa boa. É melhor do que ser rico. Uso e jogo fora. Não lavo roupa. Tem coisa que eu pego ainda com etiqueta da loja.
Temos comida, dinheiro e droga. Só que tudo vem e vai muito rápido. Acaba e a gente tem que começar tudo de novo. É como diz o funk: ‘Na cracolândia, você vale o que tem. Então, aprenda a não confiar em ninguém’. Amizade aqui só se você tiver crack.
3/31/2011
Diretrizes
Médicos, a exemplo de juízes, gostam de defender-se de insinuações de conflito de interesses apelando para a razão.
Com efeito, nenhum profissional de saúde em seu juízo perfeito receitaria uma droga sabidamente pior só porque recebeu um brinde do laboratório que a fabrica.
Ainda que os médicos desprezassem solenemente seus clientes, não teriam nenhum interesse em arriscar suas reputações por um badulaque.
Ocorre que médicos, como juízes, são seres humanos, e, como demonstrou o neurologista António Damásio, são incapazes até de pensar sem mobilizar emoções e outras manifestações do cérebro primitivo, as quais influenciam sutilmente decisões que julgamos racionais.
Tal fenômeno ocorre pelas mais insuspeitas vias. Uma das formas pelas quais seres humanos entram em sincronia é através de discretas imitções de linguagem e expessões faciais. Um experimento de 2003 de Rick van Baaren monstrou que garçonetes que reproduzem palavras e trejeitos de fregueses obtêm mais gorjetas.
Médicos, é claro, não são uma exceção. Uma metanálise clássica publicada em 2000 no "Jama" concluiu que a distribuição de brindes, amostras grátis, refeições e subvenções para viagens têm indiscutível efeito.
Pagar uma viagem para um profissional aumenta entre 4,5 e 10 vezes a chance de ele receitar as drogas produzidas pela patrocinadora. Efeitos semelhantes foram medidos para cada uma das interações mais comuns entre médicos e industria. Esse marketing ativo é tão eficiente que se estima que as farmacêuticas a ele dediquem até 30% de seus orçamentos. Esse e outros efeitos dos processos inconscientes sobre a mente racional são tantos e tão poderosos que parte dos neurocientistas hoje sustenta que o livre arbítrio não passa de uma ilusão.
Fonte: Hélio Schwartsman - Folha de São Paulo.





